Educando mentes e corações: quando a inclusão acontece de verdade

Por: Ana Carolina Chinelatto (Programa de Estágio) - Supervisão: Tânia Franco – ttferreira@sorocaba.sp.gov.br

Foto: Assis Cavalcante

Sentado na cadeira e com uma atividade sobre a mesa, Thiago, de 8 anos, presta atenção nas palavras da professora. Ao lado dele, uma jovem auxilia no que for necessário. Thiago é diagnosticado com o Transtorno do Espectro Autista (TEA), e precisa de cuidados especiais. Mas isso não o impede de frequentar as aulas em sala regular de ensino. Afinal, educação é um direito de todos e a inclusão, de fato, se faz permitindo-se que a igualdade.

E quem pensa que a deficiência dele o limita, se engana. O conteúdo que Thiago aprende na sala de aula da Escola Municipal “Tereza Ciambelli Gianini”, localizada na Vila Nova Sorocaba, é o mesmo que o dos colegas do 3° ano. A única diferença, é que, às vezes, a atividade precisa ser adaptada para facilitar a compreensão.

Há três anos matriculado na rede municipal de ensino, as evoluções de Thiago são inacreditáveis, conta Patrícia Molina Totti, mãe do garoto. Com 5 anos, quando entrou nesta escola, ele não falava e, muito menos, escrevia. “O primeiro ano foi meio conturbado, o Thiago teve que se adaptar ao ambiente novo. Mas no segundo ano eu já percebi as mudanças nele, fiquei muito feliz”, declara.

E as mudanças não estavam visíveis só aos olhos da mãe. Thiago não só começou a pedir o que desejava, como no fim do ano já conseguia escrever seu nome sozinho. “Essa foi a melhor conquista de todas. Eu não imaginava que ele conseguiria um avanço tão rápido”, comemora Patrícia, com brilho nos olhos de quem morre de orgulho do filho.

Daniele Batalha Esteban, que foi professora do Thiago no 2º ano, confessa que no início não foi fácil aprender a conviver com o menino. “Tudo era novo para ele, o ambiente, os colegas de sala, tudo. Às vezes, ele se descontrolava, ficava irritado por não conseguir fazer as lições”, relembra. Mas, segundo ela, tudo foi uma questão de tempo. Depois de alguns meses, Thiago já se sentiu parte do contexto no qual estava inserido. “Aos poucos, a gente foi conhecendo ele, ensinando o que ele podia e o que não podia fazer. Depois que ganhamos a confiança dele, foi só alegria. Ele é um menino extremamente carinhoso”, ressalta.

Ano passado, no qual Daniele foi professora dele, foi o ano de aprender o alfabeto e os números. A mãe conta que a missão foi cumprida. “Hoje ele conhece todas as letras e os números. Sabe também as quantidades das coisas. Outro dia, levei ele ao mercado, ele me pediu quatro cookies. Peguei só dois para ver a reação dele. O Thiago ficou bravo, disse que tinha pedido quatro. E eu fiquei extremamente feliz”, brinca. E Daniele também se sentiu assim. “Foi muito gratificante ver o resultado no fim do ano. O Thiago entrou um menino e saiu outro. Foi um desafio, porque eu nunca tinha trabalhado com autista, mas só consegui porque sempre tive apoio e orientação da mãe”, comenta.

Para o que der e vier

O contato com os amigos, que no início era quase nulo, hoje tem até de ser controlado. A cuidadora do Thiago, Liandra Carolina Corrêa, que o acompanha desde 2015, conta que a relação dele com os colegas é a melhor possível. “No começo, ele tinha um pouco de receio, ficava com medo de chegar perto. Mas, aos poucos, ele foi conhecendo os amiguinhos e hoje eles não se desgrudam! Todos tratam ele muito bem, não existe exclusão aqui”, garante.

Ainda conforme Liandra, foi Thiago quem procurou os colegas para fazer amizade e sempre foi muito bem recebido. “Agora o Thiago vai até a carteira dos amigos para ver como eles estão fazendo a lição. Ele quer conversar muito com os coleguinhas, a gente tem até que mandar ele voltar”, diz.

E como quaisquer outras relações de amizade, as crianças também ajudam nos momentos bons e nos ruins. De acordo com Daniele, quando Thiago tinha alguma crise, os amigos sempre queriam auxiliar. “Eles tentavam acalmá-lo, diziam que ia passar, que ele não precisava ficar daquele jeito”, comenta.

Conforme a mãe, as crises de Thiago ocorrem, na maioria das vezes, quando acontece algo diferente na rotina dele, ou quando ele não consegue se expressar. “Agora, no 3° ano, ele está aprendendo as sílabas e está ficando mais difícil para ele. Por isso, as crises dele estão um pouco mais frequentes. Mas a gente vai trabalhando isso aos poucos. Conforme ele vai aprendo as coisas, vai ficando mais fácil”, declara. “Todos nós acordamos de mal com a vida algum dia e nos estressamos. A diferença é que ele não sabe se controlar”, completa.

Divisão de Educação Especial

Acompanhar os alunos com deficiência ou com necessidades educacionais especiais, matriculados na rede municipal de ensino, é o objetivo da Divisão de Educação Especial (DEE), da Secretaria de Educação (Sedu).

Conforme a chefe de Divisão de Educação Especial, Sílvia Souza Elias dos Santos, a DEE está dividida em duas seções. Uma delas é a Seção de Apoio à Educação Especial, à qual faz o acompanhamento dos profissionais de apoio que são subdivididos em cuidadores e estagiários. “São esses profissionais que acompanham, na escola, os alunos que necessitem de auxílio para se locomover ou para realizar a higiene pessoal de forma independente, por exemplo”, explica.

Mas, de acordo com ela, deve se tomar cuidado para que este profissional não atrapalhe a autonomia da criança. “O profissional de apoio é um direito da criança com deficiência. No entanto, se colocarmos um adulto com uma criança que não precisa desses cuidados, podemos atrapalhar na independência, pois um dos objetivos da educação inclusiva é desenvolver a autonomia dessa criança”, esclarece. Hoje, 131 cuidadores e 185 estagiários acompanham os alunos da rede municipal de ensino.

Salas de Recursos Multifuncionais

Outro serviço oferecido por essa seção são as 31 Salas de Recursos Multifuncionais que estão dispostas em escolas municipais, e duas que funcionam no Grupo de Pesquisa e Assistência ao Câncer Infantil (Gpaci) de Sorocaba. O Projeto da Sala de Recursos, segundo Silvia, foi implantado pelo Ministério da Educação (MEC) a partir de 2008 e Sorocaba aderiu ao programa e iniciou as Salas no segundo semestre de 2010. “Essas salas são um direito garantido de todos os alunos que necessitem de algum tipo de atendimento especial”, destaca.

Conforme Silvia, elas funcionam no período oposto ao qual o aluno frequenta a escola, e é optativa. Um professor com formação complementar na área de educação especial, ou inclusiva, atende cada criança em um horário e complementa o aprendizado que ela recebe em sala de aula com recursos diferenciados. “A professora trabalha o mesmo conteúdo que o aluno aprende na escola, mas com recursos diferentes para que ele alcance o mesmo aprendizado das outras crianças”, reforça.

Já as duas classes hospitalares do Gpaci fazem o acompanhamento de crianças que estão afastadas da escola, mas, de acordo com Silvia, não só da rede municipal e que vivem em Sorocaba. “A professora da classe hospitalar vai trabalhar em conjunto com o professor da sala regular dessa criança e vai passar o mesmo conteúdo para que ela não fique sem estudar no período em que passa por tratamento”, explica.

De acordo com ela, no ano passado, 387 crianças estavam matriculadas nas Salas de Recursos Multifuncionais, que atenderam as seguintes deficiências: autismo, baixa visão, cegueira, condutas típicas, deficientes auditivos, surdez, cadeirantes, crianças com paralisia cerebral, com deficiência intelectual, com alguma síndrome, com surdez e cegueira e com Transtorno Invasivo do Desenvolvimento (TID).

Para atender aos alunos surdos, a prefeitura disponibiliza ainda 3 intérpretes da Língua Brasileira de Sinais (Libras) que acompanham as crianças na escola. “Se a criança frequenta a instituição de ensino em período integral, o intérprete está presente nos dois períodos, inclusive se precisar em reuniões de pais, por exemplo”, explica Silvia.

Equipe Multidisciplinar

A outra seção na qual a DEE está dividida é a de Apoio Multidisciplinar, que é composta, atualmente, por 18 profissionais. São eles: fonoaudiólogos, assistentes sociais, psicólogos, terapeutas ocupacionais e fisioterapeuta.

O objetivo da equipe é constituir uma estrutura de apoio aos alunos com necessidades educacionais especiais (NEE), sua família, professor, escola e comunidade. Entre as ações da equipe destacam-se: visitas escolares para orientação à equipe gestora, docentes e família, encontros formativos, reuniões de articulação com outras secretarias, direcionamento à rede de apoio do município e parceiros.

Conforme solicitações da escola ou da observação da própria equipe, é marcado um Apoio Multidisciplinar Educacional (AME), que consiste em discutir os casos apontados pela instituição que necessitam de algum tipo de intervenção da DEE. Mas, de acordo com Silvia, a equipe não atende somente alunos com deficiências. Cada profissional faz observações da situação de acordo com a sua área de atuação e aponta o que deve ser feito para que hajam melhorias. Segundo Silvia, a equipe pode observar que há falta de informação do professor ou da família, ou até mesmo falta de equipamentos necessários para alunos que possuam alguma deficiência física, por exemplo. “Para isso existe a chamada Tecnologia Assistiva, que trabalha também na adaptação de mobiliários escolares”, explica.

Ainda conforme ela, a equipe vai até a escola com foco de observação educacional das crianças, com o intuito de intervir no que for necessário para ajudar no desenvolvimento pedagógico ou físico. “A equipe não trabalha com o atendimento clínico. Se necessário, é feito o encaminhamento para outros profissionais”, ressalta.

Para Silvia, o trabalho da DEE é essencial para que a educação seja feita de forma igualitária para todos. “A gente tem que mudar a nossa postura enquanto professor. Precisamos trabalhar com as crianças deficientes acreditando no potencial de cada uma e não na dificuldade que elas apresentam”. Conforme diz, ainda há muito preconceito. “Tem muita gente que acha que uma criança com deficiência física ou com paralisia cerebral não vai conseguir fazer uma brincadeira de roda e ir para o chão, por exemplo. Mas porque não adaptar e permitir que ela viva a infância da mesma maneira que as outras crianças?”, indaga, ressaltando que o trabalho é árduo, mas o resultado é gratificante. “Claro que ainda existem muitos obstáculos nessa área, mas as devolutivas que recebemos das mães da evolução de seus filhos deficientes, desde que entraram na rede municipal de ensino, faz com que a gente tenha força e que o nosso trabalho valha a pena”, desabafa.

E uma dessas mães que se sente agradecida pelo trabalho desenvolvido pela DEE é a Patrícia. “Eu não tenho palavras para agradecer esse desenvolvimento do Thiago. Eu pensava que não conseguiria cuidar dele, mas hoje eu vejo o quanto a gente evoluiu em conjunto com a educação que ele recebe na escola. Ele adora ir às aulas e é um imenso prazer ver essa felicidade dele”, declara.

 

 

 

 

 

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