Produção arbórea é autossuficiente e utiliza a mão-de-obra de reeducandos

Por: Mariana Campos – macampos@sorocaba.sp.gov.br

Foto: Assis Cavalcante

Atualmente o município produz em torno de 120 mil mudas por ano

Em Sorocaba, a Prefeitura não precisa adquirir mudas de árvores para realizar plantios em áreas urbanas da cidade. Pelo contrário, a produção nos viveiros municipais é suficiente não só para os plantios, mas também para a doação, estimulando que a população também plante árvores, seja em quintais ou calçadas. Anualmente, são produzidas em torno de 120 mil mudas por ano. Todo este trabalho ainda é considerado socioambiental, já que envolve a mão de obra de reeducandos do sistema prisional, que além de ganhar pelo serviço, têm a remissão da pena e a capacitação de um ofício.

O trabalho intitulado Projeto “Recomeçar – Plantando a Liberdade” é coordenado pela Prefeitura de Sorocaba, por meio da Secretaria do Meio Ambiente (Sema), e visa aliar melhorias às condições ambientais e climáticas da cidade, contribuindo com o Plano Municipal de Arborização Urbana e com o Plano Municipal da Mata Atlântica, com a oportunidade de oferecer a inclusão social aos detentos do regime semiaberto.

A iniciativa municipal ocorre no Parque Natural “Chico Mendes”, no Projeto SOS Eco e nas duas penitenciárias de Sorocaba: “Danilo Pinheiro” (P1), no Mineirão, e “Antônio Souza Netto” (P2), em Aparecidinha, e tem parceria com a Secretaria de Serviços Públicos (Serp). Atualmente, o estoque é de cerca de 160 mil mudas de árvores em diferentes estágios de desenvolvimento.

Um detalhe importante é que a variedade de espécies é enorme. No total, Sorocaba tem mudas de 179 espécies arbóreas, sendo 141 nativas e 38 exóticas. Outra vantagem é que o custo de produção de cada muda é bem abaixo do valor de mercado. O valor investido até ela atingir um pouco mais de 1 metro de altura é de apenas R$ 5, por unidade.

Da germinação ao desenvolvimento

Tudo começa no viveiro de mudas do Parque Natural “Chico Mendes”, que possui aproximadamente 4 mil metros quadrados de área e fica aos fundos do espaço ecológico. Lá se vê um grande número de exemplares, seja de acerola, fruta-do-conde, cedro, araçá-do-cerrado, entre outras. Há também 50 tipos de plantas medicinais, como hortelã, sálvia, bálsamo, cavalinha, boldo, entre outras, viabilizadas por meio do Projeto Fito Sorocaba, em parceria com a Secretaria da Saúde, que são usados também para a educação ambiental. A produção no local é em torno de 3 mil mudas por mês.

Numa estufa, seis pessoas, entre uma técnica agrícola da Secretaria do Meio Ambiente, dois reeducandos do sistema prisional, uma pessoa que cumpre pena alternativa e dois integrantes da Cooperativa de Egressos e Familiares de Egressos de Sorocaba e Região (Coopereso) cuidam da germinação das sementes.

Este processo inicial é feito em sua grande maioria em tubetes de 12 cm, com a utilização de substrato especial misto, composto por casca de pinus, casca de eucalipto, casca de arroz, musgo, entre outros. Outro substrato utilizado no processo é proveniente do Aterro de Inertes, feito de restos de trituração de resíduos de poda de árvores das áreas públicas do município, ou seja, sem custo para o Governo Municipal.

O chefe da Seção de Botânica e Produção Vegetal da Sema, Cristians Edgar Guimarães Leite, explica que quando a germinação não ocorre em tubetes, ela é feita diretamente nas sementeiras. “Geralmente isso ocorre quando as sementes ou são muito pequenas ou são muito grandes para serem colocadas nos tubetes, como é o caso do caju, ingá, quaresmeira e a figueira”, conta. As sementes são coletadas pelos próprios funcionários da Secretaria do Meio Ambiente em parques, áreas públicas de mata e até em calçadas.

Em média, leva-se de 3 a 4 meses para que as sementes germinem. Após este período, as plântulas – como também são chamadas – são transferidas para os saquinhos e, na sequência, são levadas às penitenciárias para se desenvolverem a pleno sol, favorecendo ainda mais a adaptação da muda ao plantio, já que ficam aclimatizadas. “Nós fazemos o ciclo completo da muda, de produção de mudas de espécies nativas, exóticas e frutíferas, desde a semente até a muda formada, com condições de plantio”, afirma Cristians.

Além disso, o viveiro do “Chico Mendes” também abriga mudas de árvores oriundas de compensação ambiental, resultado de infração ambiental ou do corte de árvores autorizado pela Secretaria do Meio Ambiente. São exemplares maiores, de cerca de 1,80 metro, utilizados para a recuperação de áreas degradadas, APPs (Áreas de Preservação Permanente) e outras áreas públicas.

No Projeto SOS Eco, feito em parceria com o SOS (Serviço de Obras Sociais), o trabalho socioambiental é o mesmo realizado no “Chico Mendes” e envolve menores em conflito com a lei, numa produção de até 7 mil mudas mensais. A unidade fica na Rua Francelino Romão, 100, na Vila Rica.

Já nas penitenciárias, os reeducando cuidam do desenvolvimento das mudas, que dura em torno de 7 a 10 meses. Na P1 o projeto é desenvolvido numa área de mais de cinco mil metros quadrados, onde 10 presos do regime semiaberto trabalham de segunda a sexta-feira na produção e manutenção das mudas. Já na P2, o trabalho é realizado numa área de mais de 4 mil metros quadrados, com 10 presos do regime semiaberto atuando na produção. Além disso, existe uma estufa onde são preparados os substratos nos saquinhos e uma horta com plantas medicinais e com diversas hortaliças, que são consumidas pelos próprios presidiários.

Orgulho do trabalho

Marcio, de 42 anos, natural de Ilhabela (SP), é um dos reeducandos que integra a equipe do Parque Natural “Chico Mendes”, responsável pela produção socioambiental. Ele está há quatro meses no parque, atuando de segunda a sexta-feira, das 8h às 15h, e cumpre a sua pena em regime semiaberto na Penitenciária “Dr. Danilo Pinheiro”, no Mineirão.

Filho de jardineiro, o reeducando já tinha contato com as árvores devido ao ofício do pai. “Meu apelido aqui é dedo verde, porque tudo o que planto, brota”, brinca. Para ele, o trabalho não rende apenas um salário mínimo e a remissão na pena, já que para cada três dias trabalhados, conta um dia a menos na pena dele. “Para a cabeça é ótimo, não tem serviço melhor. Não é pesado, pelo contrário, tem que ter a maior delicadeza. A experiência e o aprendizado que ganho aqui, quando terminar de cumprir a minha pena, conseguirei me virar em qualquer lugar. E outra coisa é a ressocialização, é bom ter contato com as pessoas da Prefeitura e com os visitantes do parque”, comenta.

Segundo Márcio, a sua pena já está no fim e a previsão é que seja colocado em liberdade em setembro deste ano. “Foram 16 anos de prisão. Saindo daqui vou continuar em Sorocaba, quero arrumar um emprego nesta área mesmo, tenho minha esposa e meus enteados aqui comigo. O resto da família está toda em Ilhabela”, conta.

O seu dever diário na produção de mudas na cidade ainda é motivo de orgulho para o detento. “Só de ver estas árvores que temos à beira do rio Sorocaba e pensar que eu ajudei a germinar as sementes não dá satisfação maior, tenho orgulho deste trabalho. E não foi só isso, ajudei também na construção do Jardim Botânico”, destaca.

Da produção à doação

Sorocaba tem dois postos permanentes de doação de mudas: o Parque Natural “Chico Mendes” e o Centro de Educação Ambiental Rio Sorocaba (CEA Rio Sorocaba). Iniciativa da Secretaria do Meio Ambiente, a prática visa estimular a população sorocabana a plantar árvores e ajudar na ampliação da área total vegetada no município, em consonância com o Plano Municipal de Arborização Urbana.

No “Chico Mendes”, o munícipe pode retirar até 10 mudas por mês e é orientado sobre o método de plantio e sobre as espécies mais adequadas para cada finalidade. A doação é feita de terça a sexta-feira, das 8h às 11h e das 13h às 15h, e aos sábados, das 8h às 12h, durante a realização da Feira Orgânica do parque.

Para retirar as mudas, o munícipe assina um termo de responsabilidade no qual afirma que as árvores destinam-se exclusivamente ao plantio e não serão utilizadas para comércio ou compensação ambiental de nenhum tipo, além de comprometer-se a cuidar e proporcionar as condições necessárias para o seu pleno desenvolvimento.

O Parque Natural “Chico Mendes” está localizado na Avenida 3 de março, 1.025, no Alto da Boa Vista, e funciona de terça a domingo, das 8h às 17h. Mais informações pelo telefone (15) 3228.1256.

Já no CEA Rio Sorocaba as pessoas podem pegar gratuitamente até duas mudas, conforme a disponibilidade de espécie. No local, os munícipes também podem esclarecer dúvidas com a equipe da Secretaria do Meio Ambiente e receber mais informações sobre as espécies arbóreas. A unidade funciona de segunda a sexta-feira, das 9h às 16h, e aos sábados, das 9h às 13h, e está localizado na Avenida Dom Aguirre, às margens do rio Sorocaba, em frente ao Poupatempo.

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